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Delegar sem perder o controlo: quando a boa gestão começa por criar um sistema

21 de set.
7 min de leitura

“Eu delego, mas a pessoa não faz.” “Se eu não estiver sempre a verificar, nada avança.” São frases que muitos gestores de  pequenas e médias empresas reconhecem. Quando uma equipa é pequena e o gestor está envolvido em quase todas as decisões, é fácil criar a convicção de que determinadas tarefas só ficam bem feitas quando passam pelas suas mãos.


O problema é que esse modelo tem um limite. Enquanto a  empresa é pequena, o gestor  pode conseguir acompanhar quase tudo. À medida que o negócio cresce, o volume de  clientes aumenta, surgem novas responsabilidades e a equipa ganha dimensão, torna-se cada vez mais difícil manter o mesmo nível de intervenção em todas as tarefas. 


É nesse momento que delegar deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade  de  gestão. 


Mas delegar não significa simplesmente entregar uma tarefa a outra pessoa e afastar-se.  Delegar é criar condições para que outra pessoa consiga executar, enquanto o gestor  mantém visibilidade sobre aquilo que é importante. 


Esta distinção é particularmente relevante num país onde predominam empresas de  pequena dimensão. Segundo o Inquérito Anual às Empresas 2023 do INE, Cabo Verde  tinha 18 204 empresas ativas, maioritariamente microempresas. Em muitas destas  organizações, o gestor continua diretamente ligado à operação diária: acompanha  clientes, resolve problemas, autoriza pagamentos, trata de fornecedores, orienta  colaboradores e, ao mesmo tempo, precisa de pensar no futuro do negócio. 


Quando tudo depende da presença e da memória de uma única pessoa, o crescimento  da empresa fica condicionado pela capacidade dessa pessoa para estar em todo o lado. 


Quando uma delegação corre mal, o problema nem sempre está em quem recebeu a  tarefa 


Perante uma tarefa que não foi executada, a reação mais imediata costuma ser procurar  a responsabilidade no colaborador. Pode, naturalmente, existir falta de atenção, de  compromisso ou de competência. Mas antes de chegar a essa conclusão, vale a pena  fazer outra pergunta: a tarefa foi realmente bem delegada?


Dizer “trata do stock” parece uma instrução simples. Mas o que significa, concretamente,  tratar do stock? 


É contar todos os produtos?

Atualizar a folha de Excel?

Identificar produtos sem  movimento?

Sinalizar ruturas?

Preparar uma encomenda?

Fazer uma lista dos artigos  obsoletos? 


Se estas questões não forem esclarecidas, o gestor pode considerar que deu uma  instrução clara, enquanto o colaborador pode ter uma interpretação completamente  diferente daquilo que era esperado. 


Em empresas pequenas, onde uma mesma pessoa pode acumular várias funções, este  tipo de ambiguidade rapidamente se transforma em atrasos, retrabalho e frustração. O  gestor sente que precisa de voltar a explicar tudo e a equipa sente que está a ser avaliada  por critérios que não foram definidos no início. 


No final, perde-se tempo dos dois lados. Por isso, uma boa delegação começa antes de  a tarefa ser entregue. 


As quatro certezas de uma boa delegação 


Uma forma simples de melhorar a delegação é garantir quatro certezas antes de passar  uma responsabilidade para outra pessoa. 


  • A primeira é o que exatamente deve ser feito. Quanto mais concreta for a tarefa,  menor será o espaço para interpretações diferentes. “Tratar do stock” é vago.  “Contar as unidades de cada produto e atualizar a folha de stock” permite  perceber claramente o que se espera. 

  • A segunda é até quando deve ser feito. “Quando puderes” ou “assim que  possível” não são prazos. Uma data ou hora concreta permite à pessoa organizar  o trabalho e permite ao gestor acompanhar o compromisso. 

  • A terceira é com que meios e autoridade a pessoa conta. Pode ser necessário  acesso a determinados documentos, autorização para realizar uma despesa,  informação de outro departamento ou apoio de outro colega. Se esses recursos  não estiverem disponíveis, a tarefa pode ficar bloqueada mesmo quando existe  vontade de a executar. 

  • A quarta é como e quando o trabalho será acompanhado. O acompanhamento  deve ser combinado desde o início. Se o gestor espera uma semana inteira e só  no último dia pergunta pelo resultado, pode já ser tarde para corrigir um  problema. 


Estas quatro certezas parecem elementares, mas ajudam a transformar uma instrução  informal num verdadeiro compromisso de trabalho. 


O acompanhamento não é falta de confiança 


Existe uma dificuldade adicional na delegação: encontrar o ponto certo entre  acompanhar e controlar.


Alguns gestores têm dificuldade em abdicar do controlo. Delegam uma tarefa, mas  continuam a verificar cada passo, alteram constantemente o trabalho ou pedem  atualizações sucessivas. Na prática, a responsabilidade continua concentrada no gestor. 


Outros fazem o contrário. Entregam a tarefa e desaparecem até ao prazo final. Quando  descobrem que alguma coisa correu mal, já não existe tempo suficiente para corrigir. 


Nenhum dos extremos é particularmente eficiente.


Uma alternativa é estabelecer check-ins intermédios, sobretudo nas tarefas mais  importantes ou com prazos mais longos. Se uma tarefa deve estar concluída numa  semana, por exemplo, pode fazer sentido existir um ponto de acompanhamento a meio  desse período. O objetivo não é refazer o trabalho do colaborador, mas perceber se  existe algum bloqueio, se a prioridade mudou ou se é necessário algum apoio. 


Desta forma, o gestor mantém controlo sobre o  processo sem precisar de controlar cada  movimento. 


E há uma diferença importante entre as duas coisas: controlar tudo significa acompanhar  a execução ao detalhe; manter o controlo significa saber o que está a acontecer e intervir  quando é necessário. 


Escrever também é uma forma de gerir 


Numa  empresa, muitas instruções são dadas oralmente ou através de mensagens  rápidas. Não há necessariamente nada de errado nisso. O problema surge quando as  tarefas são importantes, repetidas ou envolvem várias pessoas e ficam apenas na  memória de quem as recebeu. 


Uma instrução escrita, mesmo que seja uma mensagem curta ou uma lista simples, cria  uma referência comum. 


Quem ficou responsável sabe o que deve fazer. O gestor sabe o que delegou. E, se surgir  uma dúvida, existe um ponto de partida para esclarecer a situação. 


A escrita também ajuda a reduzir a dependência da memória. Uma empresa que precisa  constantemente de alguém para se lembrar de prazos, pagamentos, documentos ou  procedimentos está mais vulnerável a esquecimentos e falhas. 


Isto é especialmente relevante nas tarefas que se repetem. 


Quando uma tarefa se repete, talvez já não deva depender de uma pessoa 


Se uma empresa todos os meses precisa de cobrar clientes, fechar contas, recolher  documentos, controlar o caixa ou preparar determinados relatórios, não deveria  depender de um lembrete diferente todos os meses. 


É aí que entram os  processos. 


Um processo não precisa de ser um documento extenso ou um manual cheio de páginas.  Pode ser uma sequência simples de passos, com um responsável e um prazo.


No processo de cobrança, por exemplo, pode estar definido: emitir a fatura, confirmar o  envio ao cliente, verificar o pagamento na data prevista, enviar um lembrete no primeiro  atraso e encaminhar a situação para o gestor depois de determinado período. 


No fecho mensal, podem existir igualmente rotinas para recolher documentos,  reconciliar os movimentos bancários, validar salários, rever impostos, analisar margens  e preparar um pequeno resumo financeiro. 


O benefício não está apenas em facilitar o trabalho de quem executa. Um processo bem  definido permite que a empresa seja menos dependente de uma única pessoa e torna  mais fácil identificar onde uma tarefa ficou bloqueada. 


Rotinas simples podem evitar grandes problemas 


Processos e rotinas complementam-se. Uma empresa pode ter procedimentos definidos  e, ainda assim, precisar de momentos regulares para verificar o que está a acontecer. 


Reuniões curtas, listas de tarefas partilhadas, check-ins e pequenos relatórios podem  criar um ritmo de acompanhamento sem transformar a gestão numa sucessão de  reuniões. 


Uma PME pode, por exemplo, começar a semana por rever as prioridades, fazer a meio  da semana um ponto rápido sobre as tarefas críticas e terminar a semana confirmando  o que ficou concluído, pendente ou bloqueado. 


O objetivo não é criar burocracia. É evitar que o gestor só descubra um problema quando  já não há tempo para o resolver. 


O verdadeiro papel do gestor não é apagar todos os incêndios 


Existe uma mudança de mentalidade importante quando uma empresa começa a  crescer. 


O gestor deixa progressivamente de poder ser a pessoa que sabe tudo, aprova tudo, revê  tudo e resolve tudo. O seu papel passa a ser, cada vez mais, criar as condições para que  o trabalho aconteça de forma consistente.


Isso implica definir prioridades, clarificar responsabilidades, acompanhar compromissos,  olhar para os principais indicadores do negócio e criar momentos de decisão. 


Quando isto não acontece, a empresa pode ficar presa à urgência. O gestor passa os dias  a responder ao que aparece naquele momento, enquanto tarefas importantes ficam  esquecidas ou são constantemente adiadas. 


Delegar bem permite recuperar tempo para aquilo que exige realmente a intervenção  do gestor: tomar decisões, antecipar problemas, acompanhar o negócio e pensar no seu  desenvolvimento. 


Por onde começar? 


Não é necessário reformular toda a organização de uma PME para começar a melhorar  a delegação.


Um bom primeiro exercício pode ser escolher três tarefas que falham com frequência.


Para cada uma, vale a pena definir seis elementos: o que deve ser feito, quem é  responsável, qual é o prazo, de que informação ou recursos precisa, onde o trabalho fica  registado e quando será acompanhado. 


Depois, pode ser criada uma rotina curta de acompanhamento. Quinze minutos por  semana podem ser suficientes para perceber o que avançou, identificar bloqueios e  decidir o que precisa de intervenção. 


O objetivo não é fazer com que o gestor acompanhe mais coisas. É fazer com que precise  de intervir em menos coisas. 


Uma  empresa consistente não é aquela em que o gestor se lembra de tudo. É aquela em  que as tarefas importantes estão claras, os responsáveis sabem o que têm de fazer, os  prazos são conhecidos e os problemas aparecem com tempo suficiente para serem  resolvidos. 


Delegar, no fundo, não é perder o controlo. É deixar de depender do controlo  permanente para que o trabalho aconteça.


E essa pode ser uma das mudanças mais importantes para uma PME que quer crescer:  passar de uma empresa onde tudo depende de uma pessoa para uma organização onde  as pessoas, os processos e as rotinas permitem que o trabalho avance mesmo quando o  gestor não está a olhar para cada passo.


Ouça o episódio completo aqui:


 
 
 

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