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A Economia Cresceu 8,9%: o Que Isso Quer Dizer para Si?

8 de out.
6 min de leitura

Esta semana o INE anunciou que a  economia de Cabo Verde cresceu 8,9% entre abril e junho. Parece uma ótima  notícia, mas o que quer dizer para quem tem um negócio ou gere o orçamento lá de casa? Vamos perceber isso em cinco perguntas.


PERGUNTA 1 – O que quer dizer “a  economia cresceu 8,9%”? Isso é muito? (cerca de 2  minutos)


BTOC: O número de que se fala é o PIB, o Produto Interno Bruto. É a soma de tudo o que se  produz no país: o pão da padaria, as casas que se constroem, as refeições nos restaurantes,  os serviços dos bancos, o peixe que se pesca. 


Imagine a economia como um grande bolo. Se entre abril e junho de 2025 o bolo valia 100, no  mesmo período de 2026 passou a valer cerca de 109. O bolo ficou maior. 


Há duas palavras que aparecem sempre nestas notícias. A primeira é “homólogo”: compara se com o mesmo período do ano anterior. É como um comerciante que compara as vendas  deste Natal com as do Natal passado, e não com as de setembro. A segunda é “em termos reais”: já se tirou o efeito da subida dos preços. Se uma padaria vende o mesmo número de  pães, só que mais caros, fatura mais, mas não produziu mais. Os 8,9% são crescimento  verdadeiro, em quantidade. 


E é muito, sim. No primeiro trimestre a economia tinha crescido 6,4%. No semestre todo  cresceu 7,6%, quando no primeiro semestre de 2025 tinha crescido 4,7%. É como um carro  que ia a 60 e passou para 90 quilómetros por hora.


PERGUNTA 2 – Quem está a puxar pela economia? (cerca de 2 minutos)


BTOC: Dos 8,9% de crescimento, cada setor dá a sua fatia, a que o INE chama “contributo”. 


O grande campeão foi o comércio: cresceu quase 26% e deu, sozinho, cerca de um terço de  todo o crescimento. Outro inquérito do INE, feito aos serviços, confirma isto: as vendas no  comércio subiram 24% em relação ao ano passado. As lojas, os armazéns e os grossistas  estão a vender mais. 


Em segundo lugar, a construção: cresceu 35%. Mais casas, mais obras, mais trabalho para  pedreiros e para quem vende cimento e ferro. Depois vêm os bancos e seguros, que  cresceram 18%, e a agricultura, que cresceu 33%. Na agricultura há um cuidado a ter: nos  trimestres anteriores tinha caído bastante, e quando se parte de um ano fraco é mais fácil  subir muito. É como um aluno que passa de 6 para 9 valores: subiu muito em percentagem,  mas ainda não chegou aos 18. 


Também a indústria teve boas notícias. A produção industrial subiu quase 12%, com  destaque para a indústria alimentar, que subiu 24%, e para o vestuário, que subiu 32%. Há  ainda um pormenor curioso: as fábricas produziram mais, mas os preços à saída da fábrica  desceram cerca de 3%, sobretudo na eletricidade. Produz-se mais, e mais barato. 


Quanto a quem gastou o dinheiro: as famílias gastaram mais 6%, o Estado mais 9%, e o  investimento subiu 57%. Investir é gastar hoje para produzir mais amanhã. É a diferença entre  gastar o dinheiro todo numa festa e comprar um forno novo para a padaria: a festa acaba no  dia seguinte, o forno continua a produzir pão durante anos. 


PERGUNTA 3 – Se a economia cresce tanto, porque é que muita gente não sente isso no  bolso? (cerca de 2 minutos) 


BTOC: É a pergunta mais importante, e os relatórios do INE ajudam a responder. 

Primeiro, o bolo cresceu, mas isso não quer dizer que a fatia de cada um cresceu da mesma  forma. Os setores que mais cresceram, como o comércio, a construção e os bancos, não são  os mesmos onde toda a gente trabalha. 


Segundo, o emprego está a crescer muito mais devagar do que as vendas. Nas empresas de   serviços, as vendas subiram 12%, mas o número de trabalhadores subiu menos de meio por  cento. Ou seja, as empresas estão a vender mais com praticamente as mesmas pessoas. Na  indústria há um pouco mais de emprego novo: cerca de 4%.


Terceiro, os valores pagos em salários subiram: 11% nos serviços e 10% na indústria. Como  o número de trabalhadores quase não mudou, isto indica que quem já trabalhava está a  receber mais, por aumentos ou por mais horas. Mas atenção: estes valores são “a preços  correntes”, ou seja, ainda não descontam a subida dos preços. Se o arroz, o gás e a renda  também sobem, parte desse aumento é comida pela inflação. 


Um exemplo: se o dono de uma loja vende mais 12% com os mesmos três empregados, a loja  fica melhor. Os empregados só sentem a diferença se isso se traduzir em melhores salários. 


PERGUNTA 4 – Há alguma coisa que nos deva preocupar? (cerca de 1 minuto e meio) BTOC: Há dois sinais amarelos. 


O primeiro é o turismo. Os hotéis e restaurantes caíram quase 9%, e foi o setor que mais  puxou a  economia para baixo. O dinheiro que os turistas estrangeiros gastam cá, que conta  como exportação de serviços, caiu 4%. E os próprios empresários do turismo, no inquérito  do INE, dizem que a atividade diminuiu em relação ao ano passado, que a confiança está a descer há vários trimestres e que um dos principais problemas é a falta de clientes. Para um  país que depende tanto do turismo, é um ponto a vigiar de perto. 


O segundo são as importações. Estamos a comprar ao estrangeiro mais 21%, mas a vender  ao estrangeiro só mais 9%. Em Cabo Verde, quase tudo o que se usa na construção, nas lojas  e em casa vem de fora, e por isso é natural que as importações subam quando se constrói e  se vende mais. Mas é como numa família: se o rendimento sobe e as compras fora de casa  sobem ainda mais depressa, o orçamento começa a apertar. 


A boa  notícia é que as exportações de bens, como o peixe e as conservas, subiram 43%. 


PERGUNTA 5 – O que dizem os empresários sobre os próximos meses, e o que deve fazer  quem tem um negócio? (cerca de 1 minuto e meio) 


BTOC: O INE pergunta todos os trimestres aos empresários como está o negócio. O resultado  geral é positivo: o clima económico está acima da média dos últimos anos e melhor do que  há um ano. Mas há um “mas”: desde o início do ano, esse clima está a arrefecer um pouco.  O carro continua a andar depressa, mas o condutor já tirou um pouco o pé do acelerador. 


Por setores: na indústria, a confiança está a subir. No comércio, os empresários dizem que  venderam mais, mas esperam abrandar no próximo trimestre, e queixam-se da falta de  pessoal com formação e de faltas de stock. Na construção, as encomendas diminuíram,  espera-se menos atividade e menos emprego, e todas as empresas inquiridas disseram ter  sentido dificuldades. Entre essas dificuldades estão as faltas dos trabalhadores, os juros  elevados e a dificuldade em obter crédito. 


Então, o que fazer? Três conselhos simples. 


Primeiro: se o seu negócio está a vender mais, aproveite para arrumar a casa. Organize as  contas, controle o stock para não ficar sem produto e cobre a tempo aos clientes. 

Segundo: invista na formação das pessoas. A falta de pessoal qualificado é a queixa que se  repete em quase todos os setores. Um trabalhador bem formado vale mais do que uma  máquina parada.


Terceiro: seja prudente com o crédito. Os juros estão altos e os empresários esperam algum  abrandamento. Antes de pedir um empréstimo, faça as contas para um cenário menos bom,  e não apenas para o cenário de hoje. 


FECHO (cerca de 30 segundos) Em resumo? 


BTOC: A economia está a crescer bem, puxada pelo comércio, pela construção, pelos  bancos e pela indústria, com o investimento a subir muito. Mas o emprego cresce devagar, o  turismo está a perder força, importamos muito mais do que exportamos e os empresários já esperam algum abrandamento. E lembremos que estes dados ainda podem ser revistos pelo  INE. É um bom momento, e por isso mesmo um momento para gerir com cabeça. 


Números-chave para ter à mão (2º trimestre 2026, face ao 2º trimestre 2025)

Indicador 

Valor 

Nota

PIB (real) 

+8,9% 

1º T 2026: +6,4%; 1º semestre: +7,6%  (2025: +4,7%)

Comércio e reparação (PIB) 

+25,9% 

Maior contributo: 2,6 dos 8,9 p.p.

Construção (PIB) 

+35,3% 

Contributo: 1,3 p.p.

Atividades financeiras e seguros  (PIB)

+18,0% 

Contributo: 1,1 p.p.

Agricultura (PIB) 

+32,6% 

Contributo: 0,9 p.p. (base baixa)

Alojamento e restauração (PIB) 

−8,8% 

Contributo: −0,7 p.p.

Consumo privado / público 

+6,2% /  +8,7%

 

Investimento 

+56,9% 

1º T 2026: +15,9%

Exportações / Importações 

+8,8% /  +21,3%

Export. bens +42,8%; export.  serviços  −4,0%

Produção industrial 

+11,7% 

Alimentar +24,5%; vestuário +31,8%

Preços na produção industrial 

−2,8% 

Eletricidade −6,0%

Emprego / Remunerações na  indústria

+4,1% /  +10,0%

 

Volume de negócios nos  serviços (nominal)

+12,4% 

Comércio +24,3%; −0,7% face ao 1º T

Emprego / Remunerações nos  serviços

+0,4% /  +11,1%

Valores nominais

Clima  económico (inquérito) 

Favorável 

Acima da média; em abrandamento  desde o 1º T

Construção: empresas com  limitações

100% 

91% no 2º T 2025; juros e crédito  entre as queixas

Nota: os índices de serviços e as remunerações estão a preços correntes, ou seja, sem  descontar a inflação. As contas trimestrais são provisórias e podem ser revistas.



(INE, todas relativas ao 2º trimestre de 2026): Contas Nacionais Trimestrais (30 set. 2026);  Indicadores de Curto Prazo na Indústria; Indicadores de Atividade do Setor de Serviços (1 set.  2026); Inquéritos de Conjuntura aos Operadores Económicos (ago. 2026). Notícia: Expresso  das Ilhas – “PIB cresce 8,9% no segundo trimestre de 2026”. 


Ouça o episódio completo aqui:


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