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Onde está o lucro? Quando faturar mais não significa ganhar mais

há 4 dias
7 min de leitura

As reclamações relacionadas com fraude bancária aumentaram 150% em 2025. O crescimento acompanha a expansão dos canais digitais, mas os números levantam uma questão que vai além da tecnologia: estarão os utilizadores suficientemente preparados para lidar com os novos riscos?


A pergunta parece óbvia, mas nem sempre é fácil responder. Uma empresa pode vender  muito, ter clientes, movimento e uma faturação crescente e, ainda assim, chegar ao fim  do mês com pouco dinheiro disponível. Também pode acontecer que, dentro do mesmo  negócio, alguns produtos ou serviços estejam a gerar resultados interessantes enquanto  outros consomem tempo, recursos e estrutura sem produzir uma margem suficiente. 


É precisamente aqui que começa a diferença entre gerir olhando apenas para as vendas  e gerir conhecendo verdadeiramente a rentabilidade do negócio. 


Faturar é importante, mas não é o suficiente. 


É comum ouvir um empresário dizer que “a empresa está a vender bem”. E, de facto, as  vendas são um indicador importante. Sem receitas, não existe negócio sustentável. 


O problema surge quando se confunde faturação com lucro. 


Imaginemos uma pequena mercearia que, num determinado mês, fatura 500 mil  escudos.


À primeira vista, pode parecer um bom resultado. Mas esses 500 mil escudos  não pertencem integralmente à empresa. É necessário pagar aos fornecedores, a renda  do espaço, a eletricidade, os salários, os impostos e todos os restantes custos  necessários para manter a atividade. 


No final, aquilo que realmente interessa para avaliar a rentabilidade é o que resta depois  de considerados os custos do negócio. 


Por isso, uma empresa pode aumentar significativamente as vendas e não melhorar na  mesma proporção a sua situação financeira. Se, para vender mais, tiver de praticar  descontos elevados, suportar custos adicionais, aumentar demasiado o stock ou assumir  operações com margens muito reduzidas, o crescimento da faturação pode esconder um  problema. 


Há ainda uma distinção importante: lucro e dinheiro em caixa não são exatamente a  mesma coisa. Uma empresa pode apresentar um resultado positivo e, em determinado  momento, ter pouco dinheiro disponível, por exemplo, porque tem valores por receber  de clientes ou porque realizou investimentos e assumiu pagamentos que ainda não  foram compensados pelas entradas de dinheiro. 


É por isso que olhar apenas para quanto a empresa vende ou para quanto tem disponível  na conta bancária não permite, por si só, perceber a verdadeira qualidade do negócio.


O lucro não é apenas o que sobra 


Falar de lucro como “o dinheiro que sobra” pode parecer demasiado simples. Na  realidade, a rentabilidade tem uma importância muito maior para a continuidade de  uma empresa. 


É o resultado positivo que cria capacidade para reinvestir no negócio, constituir alguma  margem para enfrentar períodos menos favoráveis e financiar novos projetos sem  depender permanentemente de financiamento externo. 


Uma empresa que gera resultados tem maior capacidade para substituir equipamentos,  reforçar o stock, contratar, abrir uma nova unidade ou investir em tecnologia. Tem  também maior margem para enfrentar uma quebra inesperada nas vendas, uma avaria  ou um aumento de determinados custos. 


Pelo contrário, quando uma empresa cresce sem gerar rentabilidade suficiente, pode  estar simplesmente a aumentar a dimensão de um problema que já existia. 


Esta é uma questão particularmente importante para pequenas e médias empresas,  onde os recursos são normalmente mais limitados e uma decisão errada pode ter um  impacto significativo. 


A questão, portanto, não deve ser apenas “quanto vendemos este mês?”, mas também  “quanto ganhámos com aquilo que vendemos?”. 


Nem tudo o que vende dá dinheiro 


É aqui que a análise da rentabilidade por produto, serviço, cliente ou área de negócio se  torna particularmente útil. 


Pensemos numa loja de confeções que vende roupa, calçado e acessórios. No final do  mês, o total das vendas pode parecer bastante positivo. Mas, quando a informação é  analisada por categoria, o cenário pode ser diferente. 


Os acessórios podem apresentar uma margem interessante e vender rapidamente. O  calçado pode exigir descontos frequentes para escoar o stock e, por isso, gerar uma  margem muito inferior à esperada. A roupa, por sua vez, pode ser aquilo que mais atrai  clientes à loja, mas apenas cobrir os custos associados à sua comercialização. 


Se o empresário olhar apenas para a faturação total, dificilmente conseguirá perceber  esta diferença. 


E isso pode levar a decisões erradas. Pode investir mais na promoção do produto que  menos contribui para o resultado, manter um serviço pouco rentável porque tem um  volume elevado de vendas ou deixar de apostar numa área que, apesar de representar  uma parcela menor da faturação, é responsável por uma parte significativa do lucro. 


A mesma lógica pode ser aplicada aos clientes. 


Dois clientes podem representar exatamente o mesmo valor de faturação e, ainda assim,  serem muito diferentes para a empresa. Um pode pagar atempadamente, exigir poucos 

recursos e ter um processo simples de acompanhamento. Outro pode exigir muitas  horas de trabalho, alterações constantes, deslocações, condições comerciais especiais e  apresentar atrasos nos pagamentos. 


A receita é igual. A contribuição para a rentabilidade pode não ser. É neste ponto que entra a contabilidade analítica 


A contabilidade financeira é essencial para a empresa. Permite registar as operações,  apurar o resultado e cumprir as obrigações legais e fiscais. Mas, para tomar  determinadas decisões de gestão, o empresário precisa de um nível de detalhe diferente. 


É essa uma das funções da contabilidade analítica, também conhecida como  contabilidade de gestão ou contabilidade de custos. 


Em vez de olhar apenas para o resultado global da empresa, a contabilidade analítica  procura perceber onde esse resultado é gerado. 


Os custos e proveitos podem ser analisados por produto, serviço, departamento, loja,  filial ou cliente. A partir daí, torna-se possível responder a perguntas que são  diretamente relevantes para a gestão: 


  • Quanto custa realmente prestar determinado serviço? 

  • Qual dos produtos comercializados apresenta a melhor margem?

  • Que área do negócio está a gerar resultados e qual está a consumir recursos?

  • Uma determinada loja ou filial é rentável? 

  • Um cliente continua a ser economicamente interessante quando se considera  todo o tempo e os recursos que exige? 


Estas respostas permitem transformar números contabilísticos em informação para  decidir. 


A diferença pode ser comparada à gestão das despesas de uma família. Saber quanto se  gastou no total durante o mês é importante. Mas saber quanto foi gasto em alimentação,  transporte, educação ou lazer permite perceber com muito mais precisão onde estão os maiores encargos e onde existem possibilidades de ajustar o orçamento. 


Nas empresas, o princípio é semelhante. 


Não é preciso começar com um sistema complexo 


Um dos equívocos sobre a contabilidade analítica é pensar que se trata de uma  ferramenta reservada às grandes empresas, com sistemas sofisticados e equipas  especializadas. 


Não tem de ser assim. 


Uma pequena empresa pode começar por organizar os seus custos e receitas de uma  forma que permita perceber a rentabilidade das diferentes partes do negócio.


O primeiro passo passa por distinguir os custos diretos dos custos indiretos. Um custo  direto é aquele que pode ser associado de forma clara a determinado produto ou  serviço, como uma matéria-prima utilizada na sua produção. Já custos como a renda ou  a eletricidade são partilhados por diferentes atividades e precisam de ser distribuídos  segundo critérios adequados. 


Depois, é necessário calcular as margens dos diferentes produtos ou serviços e  identificar quais são efetivamente mais rentáveis. 


O objetivo não é transformar cada decisão empresarial numa complexa operação  matemática. É criar informação suficientemente organizada para responder às perguntas  certas. 


Uma simples folha de cálculo pode ser um ponto de partida. O mais importante é existir  disciplina na recolha e organização dos dados e, sobretudo, regularidade na análise. Uma  fotografia tirada uma vez por ano pode não ser suficiente para um negócio cujo mercado,  custos e preços estão constantemente a mudar. 


Conhecer os custos não significa cortar por cortar 


Há outro ponto que merece atenção. 


Quando se fala em gestão de custos, existe o risco de reduzir a discussão à ideia de cortar  despesas. Mas conhecer os custos não significa simplesmente gastar menos. 


Uma empresa pode reduzir custos e, simultaneamente, prejudicar a qualidade do  serviço, perder clientes ou comprometer a capacidade de produção. Nesse caso, a  poupança imediata pode gerar um custo maior no futuro. 


A verdadeira questão é perceber que custos criam valor, quais são necessários para  manter a operação e onde existem desperdícios ou recursos mal utilizados. 


Da mesma forma, conhecer a margem de cada produto ou serviço não significa  abandonar automaticamente tudo aquilo que apresenta uma margem menor. Um  produto pode ter uma margem reduzida e desempenhar uma função estratégica, por  exemplo, atraindo clientes para outros produtos mais rentáveis. 


É por isso que a contabilidade analítica não substitui a capacidade de decisão do  empresário. Dá-lhe melhores elementos para decidir. 


Crescer também é saber onde não crescer 


Num ambiente empresarial em que muitas vezes se valoriza o crescimento das vendas,  é importante recordar que crescer não é necessariamente sinónimo de melhorar. 


Uma empresa que aumenta a faturação sem controlar os custos, sem conhecer as suas  margens e sem perceber quais são as áreas realmente rentáveis pode estar a crescer em  dimensão, mas não necessariamente em valor. 


A informação de gestão deve permitir passar de uma pergunta como “quanto  vendemos?” para outras muito mais úteis: o que vendemos com lucro? A quem 

vendemos com lucro? Quanto custa produzir e entregar? Que atividades consomem  mais recursos? Onde estamos a perder margem? 


A resposta a estas perguntas não deve surgir apenas no momento do fecho das contas.  A rentabilidade deve ser acompanhada como parte da própria gestão do negócio. 


No fundo, a contabilidade analítica estabelece uma ligação entre dados, custos, receitas,  margens e decisões. E é essa ligação que permite ao empresário deixar de olhar apenas  para o resultado final e começar a perceber o que está por trás dele. 


No próximo mês, talvez valha a pena fazer um exercício simples: em vez de olhar apenas  para a faturação total da empresa, separar os produtos, serviços ou áreas de negócio e  perguntar, em cada caso, quanto realmente contribuem para o resultado. 


Porque saber quanto a empresa vende é importante. 


Saber onde está o lucro pode ser ainda mais importante.


Ouça o episódio completo aqui:


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