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Mais digital, mais fraude? O que os números do Banco de Cabo Verde revelam

há 4 dias
6 min de leitura

As reclamações relacionadas com fraude bancária aumentaram 150% em 2025. O crescimento acompanha a expansão dos canais digitais, mas os números levantam uma questão que vai além da tecnologia: estarão os utilizadores suficientemente preparados para lidar com os novos riscos?


Fazer uma transferência pelo telemóvel, consultar o saldo da conta ou pagar uma fatura  sem sair de casa tornou-se uma operação habitual para muitos cabo-verdianos. A  digitalização dos serviços financeiros trouxe rapidez e conveniência, mas também criou  novas oportunidades para quem procura explorar falhas nos sistemas ou, sobretudo, no  comportamento dos próprios utilizadores. 


Os dados mais recentes do Banco de Cabo Verde mostram que esta mudança merece  atenção. 


Em 2025, o BCV recebeu 278 reclamações de consumidores financeiros, das quais 245  estavam relacionadas com o setor bancário e 33 com o setor segurador. No setor  bancário, a fraude destacou-se pelo ritmo de crescimento: foram registadas 25  reclamações, contra 10 em 2024, o que representa um aumento de 150%. O próprio BCV  associa esta evolução aos desafios colocados pela crescente digitalização dos serviços  financeiros e pela segurança dos canais digitais. 


O número deve ser lido com algum cuidado. As 25 reclamações não representam  necessariamente todas as situações de fraude ocorridas no país, mas sim as reclamações  recebidas pelo BCV no âmbito da sua supervisão comportamental. Ainda assim, a  evolução é suficientemente expressiva para chamar a atenção para um risco que  acompanha a expansão dos serviços financeiros digitais. 


A fraude está a acompanhar a transformação digital


O crescimento dos canais digitais alterou profundamente a relação entre clientes e  instituições financeiras. Hoje, muitas operações que antes exigiam uma deslocação ao  banco podem ser realizadas através de um computador ou telemóvel. 


Esta mudança tem vantagens evidentes, mas também altera a natureza dos riscos. 


Segundo o relatório do BCV, entre as situações de fraude identificadas estão  levantamentos em caixas automáticos e pagamentos online realizados sem autorização,  utilizando dados de cartões obtidos indevidamente. O relatório refere ainda casos de  fraude interna praticada por colaboradores de instituições bancárias e acessos não 

autorizados a contas através do internet  banking, muitas vezes associados a técnicas de  phishing. 


O phishing merece particular atenção porque não depende necessariamente de uma  falha técnica no sistema bancário. Muitas vezes, começa com uma mensagem, uma  chamada telefónica ou um e-mail que aparenta ser legítimo e procura levar o utilizador  a revelar dados de acesso ou códigos de confirmação. 


É precisamente aqui que a segurança digital deixa de ser apenas uma questão dos  bancos.


Passa também a depender da capacidade de cada utilizador reconhecer  situações suspeitas e saber como reagir. 


O problema não é usar o digital. É usá-lo sem preparação 


A resposta ao aumento da fraude não passa por abandonar o internet banking ou outros  serviços digitais. 


A digitalização trouxe ganhos importantes de conveniência e acesso aos serviços  financeiros. A questão está em acompanhar essa evolução com hábitos de segurança  adequados. 


Uma das regras mais importantes é também uma das mais simples: códigos de acesso,  palavras-passe e códigos de confirmação não devem ser partilhados com terceiros.  Uma instituição bancária não deve solicitar este tipo de informação através de  chamadas, SMS ou e-mails inesperados. 


Mensagens que criam um sentido de urgência também devem ser analisadas com  cuidado.


Pedidos para “confirmar os dados”, “desbloquear a conta” ou clicar  imediatamente num determinado link são sinais que justificam uma verificação antes de  qualquer ação. 


Outros cuidados são igualmente importantes: evitar aceder ao internet banking através  de redes Wi-Fi públicas ou desconhecidas, manter o telemóvel e as aplicações  atualizados, acompanhar regularmente os movimentos da conta e ativar notificações  sempre que o banco disponibilize essa funcionalidade. 


No caso de perda ou roubo do cartão ou do telemóvel utilizado para aceder aos serviços  bancários, o contacto com o banco deve ser feito o mais rapidamente possível, para que  sejam tomadas as medidas necessárias de bloqueio. 


A segurança digital não depende de uma única medida. Resulta da combinação entre  sistemas de proteção, procedimentos bancários e comportamento do utilizador. 


O que fazer quando aparece um movimento que não reconhecemos?


Perante um movimento suspeito na conta, a rapidez é importante. 


O primeiro passo deve ser contactar diretamente a instituição bancária, comunicar a  operação e solicitar, quando aplicável, o bloqueio do cartão ou dos acessos  comprometidos. Quanto mais cedo a situação for comunicada, maior é a possibilidade  de limitar eventuais perdas e permitir que a instituição investigue o ocorrido. 


Também é importante guardar os elementos relacionados com a situação: capturas de  ecrã, mensagens recebidas, comprovativos, dados da operação e o número de  reclamação ou ocorrência atribuído pelo banco. 


O contacto com o Banco de Cabo Verde surge numa fase posterior, quando a situação  não é resolvida ou a resposta da instituição  financeira não é considerada satisfatória. 


O BCV disponibiliza mecanismos próprios para a apresentação de reclamações através  do


Gabinete de Supervisão Comportamental, incluindo formulário disponível no seu site,  correio eletrónico e atendimento presencial. O banco central tem precisamente entre as suas funções a supervisão da conduta das instituições financeiras e a proteção dos  consumidores financeiros. 


Mais de três milhões de escudos devolvidos aos consumidores 


Os dados sobre as reclamações mostram também que existe um mecanismo de correção  quando são identificadas situações que justificam a intervenção. 


Em 2025, o acompanhamento das reclamações pelo BCV permitiu assegurar a restituição  de 3.154.582 escudos aos consumidores financeiros. O valor resultou sobretudo de  situações relacionadas com movimentos não autorizados em contas, erros operacionais  das instituições e anomalias em caixas automáticos. 


O dado é relevante por duas razões. 


Por um lado, mostra que apresentar uma reclamação pode produzir resultados  concretos.


Por outro, o mecanismo de reclamação não deve ser confundido com uma  estratégia de prevenção. Recuperar dinheiro depois de uma fraude é importante, mas  evitar que a operação aconteça continua a ser a melhor proteção. 


É também neste ponto que os números sobre fraude e os mecanismos de supervisão se  cruzam. O crescimento das reclamações coloca pressão sobre bancos, reguladores e  consumidores para reforçarem a prevenção à medida que os serviços digitais se tornam  mais presentes. 


A literacia financeira também precisa de acompanhar a digitalização 


Não basta disponibilizar ferramentas digitais. É necessário garantir que as pessoas sabem  utilizá-las. 


O BCV mantém um Plano Nacional de Educação Financeira e desenvolveu, em 2025,  iniciativas de educação financeira em parceria com diferentes entidades, abrangendo  879 participantes entre crianças, jovens e adultos. Entre as ações realizadas estiveram  iniciativas no âmbito da Global Money Week e da Semana da Poupança, bem como o  projeto “Educação Financeira Fácil para Todos”.


Estes esforços são importantes, mas a evolução dos riscos digitais coloca uma questão  adicional: quem está a ser preparado para lidar com eles? 


Uma pessoa que cresceu com smartphones e aplicações pode ter uma relação muito  diferente com os serviços digitais de alguém que começou a utilizar internet  banking  apenas nos últimos anos. A idade, o nível de familiaridade tecnológica e o acesso à  informação podem influenciar a capacidade de reconhecer uma tentativa de fraude. 


Por isso, a literacia financeira precisa cada vez mais de andar lado a lado com a literacia  digital. 


As campanhas de sensibilização podem ter um papel importante, sobretudo quando  utilizam linguagem simples e exemplos próximos da realidade das pessoas. Rádio,  televisão, redes sociais e comunicação direta dos próprios bancos podem ajudar a tornar  estas mensagens mais frequentes e acessíveis. 


Também existe espaço para uma maior atenção às empresas e aos pequenos negócios.  A utilização de cartões, transferências bancárias e outros meios de pagamento digitais  não envolve apenas consumidores individuais. Empresários e trabalhadores também  precisam de saber reconhecer operações suspeitas, proteger acessos e estabelecer  procedimentos internos que reduzam o risco. 


O desafio é acompanhar a tecnologia sem deixar ninguém para trás 


A evolução dos serviços financeiros digitais dificilmente será invertida. E não há razão  para que seja.


A questão é garantir que a comodidade que estes serviços proporcionam não seja  acompanhada por uma falsa sensação de segurança. 


Os números do BCV mostram que a fraude passou a ocupar um lugar mais relevante  entre as reclamações dos consumidores financeiros. Ao mesmo tempo, mostram que  existem mecanismos de supervisão, reclamação e restituição de valores e que a  educação financeira já faz parte da resposta institucional. 


O próximo passo passa por aproximar ainda mais essa resposta da realidade quotidiana  dos utilizadores. 


Saber que um banco nunca deve pedir determinados códigos por telefone é tão  importante quanto saber utilizar uma aplicação bancária. Reconhecer uma mensagem  suspeita pode ser tão importante quanto ter um sistema de segurança atualizado. E  saber onde reclamar pode fazer diferença quando, apesar de todos os cuidados, algo  corre mal. 


A digitalização dos serviços financeiros representa uma oportunidade para tornar o  sistema mais acessível e eficiente. Mas, para que essa transformação seja acompanhada  por confiança, é preciso que a segurança avance ao mesmo ritmo. 


E essa responsabilidade não está apenas de um lado. Bancos, reguladores e utilizadores  têm, cada um, um papel na construção de um sistema financeiro digital mais seguro.


Ouça o episódio completo aqui:


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