Mais digital, mais fraude? O que os números do Banco de Cabo Verde revelam
As reclamações relacionadas com fraude bancária aumentaram 150% em 2025. O crescimento acompanha a expansão dos canais digitais, mas os números levantam uma questão que vai além da tecnologia: estarão os utilizadores suficientemente preparados para lidar com os novos riscos?

Fazer uma transferência pelo telemóvel, consultar o saldo da conta ou pagar uma fatura sem sair de casa tornou-se uma operação habitual para muitos cabo-verdianos. A digitalização dos serviços financeiros trouxe rapidez e conveniência, mas também criou novas oportunidades para quem procura explorar falhas nos sistemas ou, sobretudo, no comportamento dos próprios utilizadores.
Os dados mais recentes do Banco de Cabo Verde mostram que esta mudança merece atenção.
Em 2025, o BCV recebeu 278 reclamações de consumidores financeiros, das quais 245 estavam relacionadas com o setor bancário e 33 com o setor segurador. No setor bancário, a fraude destacou-se pelo ritmo de crescimento: foram registadas 25 reclamações, contra 10 em 2024, o que representa um aumento de 150%. O próprio BCV associa esta evolução aos desafios colocados pela crescente digitalização dos serviços financeiros e pela segurança dos canais digitais.
O número deve ser lido com algum cuidado. As 25 reclamações não representam necessariamente todas as situações de fraude ocorridas no país, mas sim as reclamações recebidas pelo BCV no âmbito da sua supervisão comportamental. Ainda assim, a evolução é suficientemente expressiva para chamar a atenção para um risco que acompanha a expansão dos serviços financeiros digitais.
A fraude está a acompanhar a transformação digital
O crescimento dos canais digitais alterou profundamente a relação entre clientes e instituições financeiras. Hoje, muitas operações que antes exigiam uma deslocação ao banco podem ser realizadas através de um computador ou telemóvel.
Esta mudança tem vantagens evidentes, mas também altera a natureza dos riscos.
Segundo o relatório do BCV, entre as situações de fraude identificadas estão levantamentos em caixas automáticos e pagamentos online realizados sem autorização, utilizando dados de cartões obtidos indevidamente. O relatório refere ainda casos de fraude interna praticada por colaboradores de instituições bancárias e acessos não
autorizados a contas através do internet banking, muitas vezes associados a técnicas de phishing.
O phishing merece particular atenção porque não depende necessariamente de uma falha técnica no sistema bancário. Muitas vezes, começa com uma mensagem, uma chamada telefónica ou um e-mail que aparenta ser legítimo e procura levar o utilizador a revelar dados de acesso ou códigos de confirmação.
É precisamente aqui que a segurança digital deixa de ser apenas uma questão dos bancos.
Passa também a depender da capacidade de cada utilizador reconhecer situações suspeitas e saber como reagir.
O problema não é usar o digital. É usá-lo sem preparação
A resposta ao aumento da fraude não passa por abandonar o internet banking ou outros serviços digitais.
A digitalização trouxe ganhos importantes de conveniência e acesso aos serviços financeiros. A questão está em acompanhar essa evolução com hábitos de segurança adequados.
Uma das regras mais importantes é também uma das mais simples: códigos de acesso, palavras-passe e códigos de confirmação não devem ser partilhados com terceiros. Uma instituição bancária não deve solicitar este tipo de informação através de chamadas, SMS ou e-mails inesperados.
Mensagens que criam um sentido de urgência também devem ser analisadas com cuidado.
Pedidos para “confirmar os dados”, “desbloquear a conta” ou clicar imediatamente num determinado link são sinais que justificam uma verificação antes de qualquer ação.
Outros cuidados são igualmente importantes: evitar aceder ao internet banking através de redes Wi-Fi públicas ou desconhecidas, manter o telemóvel e as aplicações atualizados, acompanhar regularmente os movimentos da conta e ativar notificações sempre que o banco disponibilize essa funcionalidade.
No caso de perda ou roubo do cartão ou do telemóvel utilizado para aceder aos serviços bancários, o contacto com o banco deve ser feito o mais rapidamente possível, para que sejam tomadas as medidas necessárias de bloqueio.
A segurança digital não depende de uma única medida. Resulta da combinação entre sistemas de proteção, procedimentos bancários e comportamento do utilizador.
O que fazer quando aparece um movimento que não reconhecemos?
Perante um movimento suspeito na conta, a rapidez é importante.
O primeiro passo deve ser contactar diretamente a instituição bancária, comunicar a operação e solicitar, quando aplicável, o bloqueio do cartão ou dos acessos comprometidos. Quanto mais cedo a situação for comunicada, maior é a possibilidade de limitar eventuais perdas e permitir que a instituição investigue o ocorrido.
Também é importante guardar os elementos relacionados com a situação: capturas de ecrã, mensagens recebidas, comprovativos, dados da operação e o número de reclamação ou ocorrência atribuído pelo banco.
O contacto com o Banco de Cabo Verde surge numa fase posterior, quando a situação não é resolvida ou a resposta da instituição financeira não é considerada satisfatória.
O BCV disponibiliza mecanismos próprios para a apresentação de reclamações através do
Gabinete de Supervisão Comportamental, incluindo formulário disponível no seu site, correio eletrónico e atendimento presencial. O banco central tem precisamente entre as suas funções a supervisão da conduta das instituições financeiras e a proteção dos consumidores financeiros.
Mais de três milhões de escudos devolvidos aos consumidores
Os dados sobre as reclamações mostram também que existe um mecanismo de correção quando são identificadas situações que justificam a intervenção.
Em 2025, o acompanhamento das reclamações pelo BCV permitiu assegurar a restituição de 3.154.582 escudos aos consumidores financeiros. O valor resultou sobretudo de situações relacionadas com movimentos não autorizados em contas, erros operacionais das instituições e anomalias em caixas automáticos.
O dado é relevante por duas razões.
Por um lado, mostra que apresentar uma reclamação pode produzir resultados concretos.
Por outro, o mecanismo de reclamação não deve ser confundido com uma estratégia de prevenção. Recuperar dinheiro depois de uma fraude é importante, mas evitar que a operação aconteça continua a ser a melhor proteção.
É também neste ponto que os números sobre fraude e os mecanismos de supervisão se cruzam. O crescimento das reclamações coloca pressão sobre bancos, reguladores e consumidores para reforçarem a prevenção à medida que os serviços digitais se tornam mais presentes.
A literacia financeira também precisa de acompanhar a digitalização
Não basta disponibilizar ferramentas digitais. É necessário garantir que as pessoas sabem utilizá-las.
O BCV mantém um Plano Nacional de Educação Financeira e desenvolveu, em 2025, iniciativas de educação financeira em parceria com diferentes entidades, abrangendo 879 participantes entre crianças, jovens e adultos. Entre as ações realizadas estiveram iniciativas no âmbito da Global Money Week e da Semana da Poupança, bem como o projeto “Educação Financeira Fácil para Todos”.
Estes esforços são importantes, mas a evolução dos riscos digitais coloca uma questão adicional: quem está a ser preparado para lidar com eles?
Uma pessoa que cresceu com smartphones e aplicações pode ter uma relação muito diferente com os serviços digitais de alguém que começou a utilizar internet banking apenas nos últimos anos. A idade, o nível de familiaridade tecnológica e o acesso à informação podem influenciar a capacidade de reconhecer uma tentativa de fraude.
Por isso, a literacia financeira precisa cada vez mais de andar lado a lado com a literacia digital.
As campanhas de sensibilização podem ter um papel importante, sobretudo quando utilizam linguagem simples e exemplos próximos da realidade das pessoas. Rádio, televisão, redes sociais e comunicação direta dos próprios bancos podem ajudar a tornar estas mensagens mais frequentes e acessíveis.
Também existe espaço para uma maior atenção às empresas e aos pequenos negócios. A utilização de cartões, transferências bancárias e outros meios de pagamento digitais não envolve apenas consumidores individuais. Empresários e trabalhadores também precisam de saber reconhecer operações suspeitas, proteger acessos e estabelecer procedimentos internos que reduzam o risco.
O desafio é acompanhar a tecnologia sem deixar ninguém para trás
A evolução dos serviços financeiros digitais dificilmente será invertida. E não há razão para que seja.
A questão é garantir que a comodidade que estes serviços proporcionam não seja acompanhada por uma falsa sensação de segurança.
Os números do BCV mostram que a fraude passou a ocupar um lugar mais relevante entre as reclamações dos consumidores financeiros. Ao mesmo tempo, mostram que existem mecanismos de supervisão, reclamação e restituição de valores e que a educação financeira já faz parte da resposta institucional.
O próximo passo passa por aproximar ainda mais essa resposta da realidade quotidiana dos utilizadores.
Saber que um banco nunca deve pedir determinados códigos por telefone é tão importante quanto saber utilizar uma aplicação bancária. Reconhecer uma mensagem suspeita pode ser tão importante quanto ter um sistema de segurança atualizado. E saber onde reclamar pode fazer diferença quando, apesar de todos os cuidados, algo corre mal.
A digitalização dos serviços financeiros representa uma oportunidade para tornar o sistema mais acessível e eficiente. Mas, para que essa transformação seja acompanhada por confiança, é preciso que a segurança avance ao mesmo ritmo.
E essa responsabilidade não está apenas de um lado. Bancos, reguladores e utilizadores têm, cada um, um papel na construção de um sistema financeiro digital mais seguro.
Ouça o episódio completo aqui:





Comentários