top of page

Atualização Económica de Cabo Verde: A relação entre a conectividade inter-ilhas e o crescimento

  • 21 de jul.
  • 4 min de leitura

Os números mais recentes da economia cabo-verdiana são animadores. Depois dos anos marcados pela pandemia e pelos seus impactos, o país voltou a crescer de forma consistente. O turismo recuperou, o investimento ganhou dinamismo, as contas públicas melhoraram e o desemprego voltou a diminuir.



Mas basta olhar um pouco para além dos indicadores macroeconómicos para perceber  que existe uma questão mais profunda: estará este crescimento a beneficiar o país de  forma equilibrada? 


É precisamente esta reflexão que marca a mais recente Atualização Económica de Cabo  Verde, publicada pelo Banco Mundial. Para além de analisar o desempenho económico  recente, o relatório dedica especial atenção a um fator que muitas vezes passa  despercebido quando se fala de desenvolvimento: a conectividade entre as ilhas. 


Uma economia que continua a crescer 


Em 2025, Cabo Verde registou um crescimento económico de 6,3%, impulsionado  sobretudo pelo turismo, pela expansão do setor dos serviços e pelo aumento do  investimento. A procura proveniente dos mercados europeus, aliada ao reforço das  ligações aéreas internacionais, levou o país a atingir níveis recorde de chegadas de  turistas. Ao mesmo tempo, o Estado registou o primeiro excedente orçamental desde  2007 e as reservas internacionais alcançaram um máximo histórico. 


Também o mercado de trabalho apresentou sinais positivos. A taxa oficial de  desemprego baixou para 6,2% e cerca de 12 mil pessoas saíram da situação de pobreza  entre 2024 e 2025. Estes resultados demonstram uma economia mais dinâmica e uma  maior capacidade de gerar rendimento. 


Contudo, estes números não contam toda a história. 


O Banco Mundial alerta que a subutilização da força de trabalho continua elevada,  atingindo 23,6%. Isto significa que muitas pessoas permanecem em empregos precários,  com poucas horas de trabalho ou abaixo das suas qualificações. O desemprego jovem  continua igualmente a representar um desafio, sobretudo entre mulheres e jovens com  formação superior. 


Ao mesmo tempo, embora a inflação média tenha permanecido relativamente  moderada, o aumento do preço dos alimentos continuou a pressionar o orçamento das  famílias, reduzindo parte dos ganhos proporcionados pelo crescimento económico. 


Tudo isto mostra que crescer é importante, mas não é suficiente. O verdadeiro desafio  passa por garantir que esse crescimento cria oportunidades em todas as ilhas e melhora  efetivamente a qualidade de vida das pessoas.


O problema que vai muito além dos transportes 


Quando se fala em conectividade inter-ilhas, é comum pensar apenas em barcos ou  aviões. 


No entanto, o relatório do Banco Mundial mostra que esta questão tem implicações  muito mais profundas para o funcionamento da economia. 


Num arquipélago como Cabo Verde, onde a população, a atividade económica e os  recursos estão distribuídos por várias ilhas, a facilidade de circulação de pessoas e  mercadorias determina a capacidade do país funcionar como um mercado único. 


Sempre que um empresário enfrenta dificuldades para transportar produtos, um  trabalhador perde oportunidades por falta de ligações regulares ou um turista desiste  de visitar várias ilhas devido aos custos e à imprevisibilidade dos transportes, a economia  perde eficiência. 


Neste contexto, a conectividade deixa de ser apenas uma questão de mobilidade para  se tornar um fator determinante da competitividade nacional. 


O custo invisível da fraca conectividade 


Segundo o Banco Mundial, Cabo Verde tem investido significativamente em  infraestruturas portuárias e aeroportuárias. Ainda assim, os resultados continuam  aquém do esperado. 


O problema já não reside apenas nas infraestruturas físicas. Está sobretudo na forma  como o sistema é organizado, regulado e gerido. 


No transporte aéreo doméstico persistem voos pouco frequentes, tarifas elevadas,  mudanças sucessivas de operadores e uma forte dependência das companhias públicas. 


No transporte marítimo, apesar do seu papel essencial na circulação de passageiros e  mercadorias, continuam a verificar-se frotas envelhecidas, níveis de serviço irregulares  e mecanismos de compensação pouco transparentes. 


Estas limitações produzem efeitos muito concretos. 


O turismo permanece fortemente concentrado nas ilhas do Sal e da Boa Vista, enquanto  outras ilhas encontram maiores dificuldades em beneficiar deste setor. 


Agricultores, pescadores e pequenos produtores enfrentam custos logísticos elevados  para fazer chegar os seus produtos aos principais mercados nacionais, reduzindo a  competitividade da produção local. 


Em muitos casos, torna-se economicamente mais simples importar determinados  produtos do exterior do que transportá-los entre ilhas. Esta realidade limita o  desenvolvimento das cadeias de valor nacionais e reduz o potencial de crescimento de  vários setores produtivos.


Mais do que investir, é preciso reformar 


O relatório é claro ao afirmar que o país necessita de uma mudança de paradigma. 


Mais do que continuar a investir em infraestruturas, importa criar um modelo de  governação mais transparente, previsível e orientado para resultados. 


Entre as principais recomendações destacam-se a abertura do mercado da aviação  doméstica à entrada de operadores privados em segmentos específicos, a substituição  dos atuais modelos de apoio público por contratos competitivos baseados em objetivos  de desempenho, o reforço da regulação económica e da transparência dos dados e a  modernização do modelo de concessão do transporte marítimo. 


O Banco Mundial defende igualmente um maior planeamento integrado entre  transporte marítimo e aéreo, permitindo que ambos funcionem como um sistema  complementar e não como serviços isolados. 


O objetivo é simples: tornar as ligações entre ilhas mais frequentes, mais previsíveis,  mais acessíveis e financeiramente mais sustentáveis. 


Um desafio que diz respeito a toda a economia 


O crescimento económico de Cabo Verde dependerá sempre do turismo, da confiança  dos investidores e da estabilidade macroeconómica. 


Contudo, se o país pretende diversificar a sua economia, reduzir desigualdades regionais  e criar mais oportunidades para empresas e trabalhadores, será necessário garantir que  todas as ilhas participam desse crescimento. 


A conectividade inter-ilhas não deve ser encarada apenas como uma política de  transportes. É uma política de desenvolvimento económico. 


Quando pessoas, mercadorias, serviços e investimento circulam com maior facilidade,  aumentam as oportunidades de negócio, reduzem-se custos, fortalecem-se as empresas  locais e cria-se um mercado interno mais integrado. 


O desafio colocado pelo Banco Mundial não é apenas melhorar barcos ou aviões.  


É construir um sistema capaz de aproximar ilhas, dinamizar empresas e transformar o  crescimento económico num benefício efetivamente partilhado por todo o país.


Ouça o episódio completo aqui:


Comentários


bottom of page