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A euforia também gera riqueza? O que a campanha dos Tubarões Azuis nos pode ensinar sobre economia

  • 29 de jun.
  • 7 min de leitura

Estamos a viver um momento em que o país inteiro parece respirar ao mesmo ritmo.As ruas ganham outra energia, os cafés enchem-se mais cedo; nas empresas, as conversas começam pelo mesmo assunto e a diáspora aproxima-se ainda mais de casa. Durante alguns dias, as diferenças ficam em segundo plano porque existe algo maior que une todos: o orgulho de ver Cabo Verde fazer história.



É isso que os Tubarões Azuis têm proporcionado nesta edição do Mundial.


Mas quando o apito final soa e as emoções começam a acalmar, vale a pena fazer uma pergunta diferente daquelas que habitualmente ouvimos nos programas desportivos.


O que acontece à economia quando um país inteiro ganha confiança ao mesmo tempo?


À primeira vista, a pergunta pode parecer estranha. Afinal, a alegria não aparece nas estatísticas oficiais, não entra nas contas nacionais e não faz aumentar, por si só, o Produto Interno Bruto. No entanto, a economia é feita por pessoas; e as estas tomam decisões influenciadas pelo que sentem.


Quando milhares de pessoas mudam, ainda que temporariamente, a forma como consomem, investem, viajam ou olham para o futuro, a economia acaba inevitavelmente por refletir parte dessas mudanças.


É precisamente por isso que, há vários anos, universidades, centros de investigação e organismos internacionais estudam os efeitos económicos dos grandes eventos desportivos. A questão deixou de ser saber se existe algum impacto. A verdadeira discussão passou a ser outra: onde é que esse impacto aparece e quanto tempo consegue durar.


Muito mais do que noventa minutos


Quando uma seleção nacional supera as expectativas, o efeito vai muito além do resultado desportivo.


O país ganha visibilidade internacional, reforça a sua identidade e desperta curiosidade junto de quem nunca lhe tinha prestado atenção. Ao mesmo tempo, dentro de portas, instala-se um sentimento coletivo de confiança que, embora seja difícil de medir, influencia comportamentos.


É aqui que a economia entra em campo.


Pensemos num exemplo simples. Num dia de jogo, milhares de pessoas escolhem reunir-se em restaurantes, cafés ou espaços públicos para acompanhar a seleção. O consumo aumenta em determinados setores; os operadores de telecomunicações registam mais tráfego; há maior procura por produtos relacionados com a seleção, desde camisolas a bandeiras. Pequenos negócios aproveitam o momento para lançar campanhas e promoções. Nada disto altera, por si só, o rumo da economia nacional. Mas quando estes comportamentos se repetem em larga escala, deixam de ser casos isolados e passam a representar atividade económica.


Existe, porém, um efeito menos visível e ainda mais importante: a confiança.


Afinal, as decisões económicas não dependem apenas dos rendimentos ou dos preços, mas também das expectativas. Por exemplo, uma família que acredita que o futuro será melhor tende a consumir de forma diferente; um empresário que sente um ambiente mais positivo pode decidir avançar com um investimento que vinha adiando; um empreendedor ganha motivação para iniciar um novo projeto.


É evidente que uma campanha no Mundial não resolve problemas estruturais, nem substitui políticas económicas consistentes. No entanto, pode criar um ambiente psicológico mais favorável à tomada de decisões, e isso também faz parte da economia.


Quando o mundo começa a olhar para um país


Há outro efeito que merece especial atenção, sobretudo num país como Cabo Verde.


Enquanto o impacto interno tende a ser temporário, a exposição internacional pode produzir benefícios durante muito mais tempo.


Milhões de pessoas que nunca tinham ouvido falar de Cabo Verde passaram a ver o nome do país repetidamente nos meios de comunicação internacionais. Outras tantas começaram a procurar informações sobre o arquipélago, a sua cultura, a sua história e os seus destinos turísticos.


Esse interesse pode parecer mera curiosidade, mas, muitas vezes, é assim que começam novas oportunidades.


Uma pesquisa na internet pode transformar-se numa reserva turística; uma reportagem pode despertar o interesse de um investidor; um empresário pode descobrir um mercado que desconhecia; um membro da diáspora pode sentir-se motivado a regressar, investir ou promover ainda mais o país onde vive.


Em economia, a reputação tem valor.


Uma campanha histórica no Mundial representa, nesse sentido, uma oportunidade rara.

Não porque resolve desafios económicos, mas porque coloca o país no radar de milhões de pessoas sem que tenha sido necessário comprar esse espaço mediático. Mas naturalmente, existe uma condição: a atenção, por si só, não produz riqueza expressiva.


O que a experiência internacional nos ensina


Se esta relação entre futebol e economia fosse apenas uma perceção, dificilmente teria despertado o interesse de tantos investigadores. A verdade é que existem dezenas de estudos sobre o impacto económico dos Mundiais e de outras grandes competições.


Mas, como dissemos anteriormente, o futebol não faz milagres económicos. Nenhum país enriquece apenas porque a sua seleção teve uma boa prestação. Mas também é verdade que ignorar estes momentos seria desperdiçar uma oportunidade.


A Alemanha é um dos exemplos mais conhecidos. Depois do Mundial de 2006, os estudos mostraram que o impacto no crescimento económico foi relativamente modesto. Ainda assim, houve ganhos difíceis de ignorar: a imagem do país fortaleceu-se, o orgulho nacional aumentou e vários setores, como a hotelaria, os transportes e os serviços ligados ao evento, registaram benefícios importantes. O chamado feel-good effect tornou-se, inclusivamente, objeto de estudo entre economistas.


Para Cabo Verde, porém, há um exemplo ainda mais interessante.


Em 2014, a Costa Rica chegou ao Mundial sem grandes expectativas. Inserida num grupo com três antigos campeões do mundo, poucos acreditavam que pudesse ir longe. No entanto, surpreendeu tudo e todos e transformou-se numa das grandes histórias da competição.


O impacto dessa campanha não ficou limitado ao futebol.


Nos meses seguintes, vários estudos identificaram um aumento da notoriedade internacional do país e um reforço da procura turística. Milhões de pessoas que pouco sabiam sobre a Costa Rica passaram a associá-la a uma história de superação, organização e capacidade competitiva.


Curiosamente, nem todos os efeitos foram imediatos. Durante o próprio Mundial, alguns negócios ligados ao turismo registaram uma procura inferior ao habitual, porque muitas pessoas preferiram acompanhar os jogos em vez de viajar. É um bom exemplo de como a economia raramente responde de forma linear. Existem ganhos de curto prazo, perdas pontuais e benefícios que só se tornam visíveis meses mais tarde.


Há ainda outra lição importante.


A África do Sul, anfitriã do Mundial de 2010, demonstrou que a visibilidade internacional só produz resultados duradouros quando existe um plano para a aproveitar. O evento ajudou a reposicionar a imagem do país, mas os maiores benefícios surgiram nas áreas em que houve continuidade, promoção internacional e uma estratégia clara de valorização da marca-país.


Em todos estes casos, a mensagem é praticamente a mesma: o entusiasmo abre portas,

mas o crescimento económico depende da capacidade de entrar por elas.


E Cabo Verde?


É aqui que a discussão se torna particularmente interessante.


Cabo Verde não organizou um Mundial nem construiu grandes infraestruturas para receber milhões de visitantes. O que conquistou foi algo diferente e, talvez por isso, ainda mais valioso: a atenção.


Durante várias semanas, jornais, televisões e plataformas digitais de diferentes países passaram a falar dos Tubarões Azuis. O nome de Cabo Verde circulou muito para além dos mercados onde normalmente está presente.


Essa visibilidade cria uma oportunidade rara para um país com a dimensão do nosso.


Cada notícia publicada, cada reportagem transmitida e cada pesquisa feita na internet representam pessoas que descobriram Cabo Verde ou voltaram a olhar para ele.Algumas serão turistas, outras poderão ser investidores, e, quiçá, outras serão empresários à procura de novos mercados. Haverá também milhares de cabo-verdianos na diáspora que sentirão um orgulho renovado e uma vontade ainda maior de promover o país onde vivem, trabalham e investem.


Nenhuma destas possibilidades é garantida. Mas todas elas passam a ser mais prováveis quando a reputação internacional melhora.


É por isso que esta campanha histórica não deve ser vista apenas como uma conquista desportiva: ela representa também um “ativo económico”.


Um ativo diferente dos habituais, porque não se mede em edifícios, estradas ou equipamentos. Mede-se em confiança, notoriedade, credibilidade e capacidade de captar oportunidades futuras. E esses ativos, embora invisíveis, têm um peso cada vez maior nas economias modernas.


Isto posto, a questão deixa de se é se a campanha dos Tubarões Azuis teve impacto. A questão passa a ser: estaremos preparados para transformar esta visibilidade em resultados concretos?


O verdadeiro desafio começa depois do Mundial


Se há algo que a experiência internacional demonstra é que a euforia tem prazo de validade.


A atenção mediática diminui, os holofotes deslocam-se para outras competições e a rotina acaba por substituir a emoção dos dias de jogo. É por isso que os países que conseguem retirar maior proveito destes momentos são aqueles que agem enquanto o interesse ainda existe.


Para Cabo Verde, a questão já não é apenas celebrar uma campanha histórica, mas sim perceber como transformar este momento num ponto de partida.

Isso implica fazer algo que nem sempre fazemos: medir.


Durante muito tempo, avaliámos o impacto de um grande acontecimento quase exclusivamente pela perceção. Se o comércio parecia mais movimentado, assumíamos que as vendas tinham aumentado. Se os hotéis pareciam mais cheios, concluíamos que o turismo estava a beneficiar. Mas a economia vive de dados, não de impressões.


Nos próximos meses, será interessante acompanhar indicadores que permitam perceber se esta onda de entusiasmo teve reflexos reais na atividade económica.


Houve um aumento das vendas nos setores da restauração, do comércio ou do lazer?

As pesquisas sobre Cabo Verde cresceram nos principais motores de busca? As reservas turísticas registaram alguma evolução?

Surgiram novos contactos de investidores ou parceiros internacionais?

A diáspora mostrou maior interesse em visitar, investir ou promover o país?


Nenhum destes indicadores, isoladamente, contará toda a história.


Mas, analisados em conjunto e ao longo dos próximos dois anos, poderão mostrar se esta campanha deixou um legado que vai além da memória dos adeptos. O objetivo não é provar que o futebol transformou a economia cabo-verdiana, e sim perceber até que ponto um momento de enorme projeção internacional influenciou comportamentos, decisões e oportunidades.


Este trabalho não exige estruturas complexas nem investimentos avultados. Exige coordenação entre instituições públicas, entidades ligadas ao turismo, sistema financeiro, câmaras de comércio e organismos responsáveis pela promoção externa do país. Mais do que criar novos indicadores, importa aproveitar melhor a informação que já existe e analisá-la à luz deste contexto excecional.


Há oportunidades que não voltam duas vezes.


Existe uma expressão em latim que encaixa perfeitamente neste artigo: Audaces fortuna juvat. Em português, significa “a sorte favorece os audazes”.A frase costuma ser associada à coragem de quem decide arriscar, mas também pode ser interpretada de outra forma: as oportunidades favorecem quem está preparado para as aproveitar.


Os Tubarões Azuis fizeram a sua parte. Mostraram ao mundo um Cabo Verde competitivo, resiliente e capaz de desafiar as expectativas, criaram uma narrativa positiva que despertou curiosidade e orgulho dentro e fora do país.


Agora, a bola já não está apenas nos pés da seleção.

Está também nas mãos das empresas, das instituições e de todos aqueles que podem transformar esta visibilidade em novos negócios, mais turismo, maior investimento e uma marca-país ainda mais forte.


Se calhar, este é um dos maiores ensinamentos desta campanha histórica.


O futebol pode não mudar uma economia por si só, mas pode criar as condições para que uma economia se mova.


E, por vezes, é assim que começam as mudanças mais importantes.


Ouça o episódio completo aqui:


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